Quarta-feira, Julho 01, 2009

Morder a vida com todos os dentes

Quando meu bisavô paterno, o velho Nicolás, resolveu sair de Granada, Espanha, se enfiar um navio e vir pra cá, no começo do século XX, ninguém disse pra ele que seria fácil. Mas ele - sabe Deus por quê! - resolveu fazer isso, e veio, e se estabeleceu como funcionário da prefeitura de São Paulo, e teve uma penca de filhos, supostas amantes (atraídas pelo charme de um espanholzão forte e charmoso) e um enfarte quando ainda não podia ser chamado de velho. Deixou pro meu avô, como herança, o próprio nome que ganhou quando se naturalizou brasileiro, Nicolau Gimenez Garcia, sendo meu avô o Gimenez Garcia Filho.

Quando meu avô, o velho Seu Nicola, começou a trabalhar na prefeitura, ainda moleque, como aprendiz, tendo que subir num caixotinho de madeira pra alcançar a bancada, ninguém disse pra ele que a vida era fácil. E realmente, a vida não é fácil pra um cara que tem três filhos pra criar e um temperamento difícil. Mas porra, meu avô até que se saiu bem. Hoje assiste os westerns dele na TV à cabo, lê o jornal, não bebe mais, não fuma mais e até o refrigerante cortou. É bem verdade que tem uma penca de manias, que estão sendo transmitidas de geração pra geração (não, ainda não chegou a hora de falar do meu pai), mas é um cidadão-padrão, casado há muitas décadas com a minha vó, uma esposa à moda antiga, também filha de espanhóis, faladeira, sempre querendo agradar e às vezes não agradando. Pra ela também ninguém deve ter dito que a vida era fácil.

Quando meu pai teve que largar o samba pra correr atrás do meu pão, ele deve ter pensado "é, nêgo. A vida não é fácil". Minha mãe, então... Tinha acabado de perder o pai, sustentava a casa e engravidou de um namorado com o qual ela não tinha planos de se casar. E se casou. E aí foi o mundo nas costas dela, como é até hoje. Mãe, marido e filhos. Mas ela tá aí na luta. Nunca me disse que a vida é fácil, mas faz de tudo pra torná-la fácil pra mim. Ela e meu pai, aliás. Nunca ouvi, deles, palavras de desconsolo. Já vi os dois em situação difícil, mas eles sempre me incentivaram a seguir caminhando.

A vida não foi fácil pro meu avô materno, alcoolatra, trabalhador, homem conhecido pela gentileza e educação quando não estava de porre. Não foi fácil pra minha vó materna, que fazia faxina pra fora, que criou a filha com dificuldade, que se desesperou com o vício do marido e que depois, quando ele se foi e os netos vieram, os criou pros pais, meus pais, poderem trabalhar fora.

A vida não é fácil pra dona Maria, copeira do hospital Pérola Byington, não é fácil pro Severino, porteiro de prédio chique em Higienópolis, nem pro Ademir, motorista da linha Jd. Fontalis-Barra Funda. No entanto, cada um do seu jeito, eles estão tentando. Tentando morder a vida com todos os dentes, na fúria de quem quer arrancar pedaço. O mendigo Zé Sujo que, quando deixam, toma banho no chafariz do Largo da Memória, não tem dentes, mas morde a vida com as gengivas, e morde de tal jeito que dilacera, e ele ri, ele ri desenfreado, sem culpa, sem medo, porque a vida é isso aí mesmo.

E eu, que não vim de outro país, que não lavo casa dos outros, que não tenho vício nem doença, que comecei a trabalhar com 23 anos de idade e na profissão que eu escolhi pra mim, eu que tenho tudo que meus pais puderam dar, além de não ser (muito) feio nem (muito) burro, eu fico nessa de olhar a vida, com a boca cheia de saliva, e não morder. Esperando o prato esfriar, o garçom passar, a fome chegar. Esperando? O amor? Que amor? Petiscando sonhos, pensamentos fixos, bobocas, que me fazem perder um tempo do cacete. Que marola é essa? Quando foi que eu fiquei desse jeito? Esperando cair migalha da mesa? Sendo que na minha frente tem de tudo, do bom e do melhor?

Sabe qual é, meu irmão? Cansei dessa pataquada toda. Afiei meus caninos e agora sim, com meus trinta e poucos dentes, meus vinte e poucos anos, saúde de ferro e nervos de aço, eu decidi que vou pra luta. Foda-se quem for contra. Tem muita gente, viva e morta, que eu não posso mais desapontar.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Descrição curta de um sonho

Encanei que precisava ir a um lugar do meu passado, um lugar onde outrora tive prazer e alegria. Porém, na atual conjuntura, era maluquice ir lá, ainda mais podendo ser visto pelas pessoas que lá vivem.

Mesmo assim fui, e me perdi no bairro. Os caminhos tinham mudado. As ruas não desembocavam mais onde davam antes. E, lá pelas tantas, sentia minhas pernas pesadas como chumbo, e não conseguia sair do lugar. Estacionei em frente ao "Hospital Cerejeiras", onde um casal estranho me olhou esquisito e só veio em meu socorro quando reclamei de cãibras. Estiraram minhas pernas, e então consegui novamente andar, mas com muito esforço. (É uma sensação esquisitíssima você sonhar que não consegue andar, que anda, anda, e não sai do lugar. E não é a primeira vez que sonho isso).

Quando saí do hospital, vinha passando um carro com meus amigos de sempre e nos deram uma carona pelo bairro, um bairro que conheço tão bem, mas que no sonho me era tão estranho. Eu queria saber se, como o bairro, a casa também tinha mudado. E queria vê-la, é claro. Mas tinha receio que ela me visse. Na ânsia de chegar lá, queria descer do carro, e todos zombavam de mim. Zombavam por eu ser um cara tão patético assim, que quer voltar para onde não deve. Zombavam por eu carregar comigo aquela bola de boliche preta, velha, com furos a mais e que eu não sabia explicar de onde veio nem porquê estava comigo, tampouco porquê não a largava. Zombavam por eu sequer saber que ainda faltava muito para chegar perto de lá.

Então paramos num ponto onde havia uma imensa escadaria. Somente um amigo, condoído talvez, se dispôs a me acompanhar naquela "maluquice" - o que você vai fazer lá? Iniciamos a subida. Minha expectativa era grande, assim como a saudade.

Estávamos no meio da escada, eu sabia que ela daria na rua certa.

Fui acordado. Era hora de sair pro trabalho. Melhor assim.

Domingo, Maio 24, 2009

Memórias Sentimentais Imaginadas

Invenção 1.
Eu a conheci na fila do banco, ela ia descontar um cheque. Cheque de quem? Do patrão? De um cliente (ela era uma stripper part time)? De um freguês do salão? Da aposentadoria da tia? Gratificação? Cheque roubado?

Eu me aproximei, disse "não se mexa", delicadamente aproximei meu indicador do seu queixo e cocei devagar, com cuidado, até retirar aquele pontinho preto que maculava um milímetro da pele branca, extremamente branca, desprovida de maquiagem. Ela, como nos meus sonhos, sorriu para mim, olhou-me em direção dos meus braços, perguntou "você gosta de poesia?"

Na cama, era langorosa, ao mesmo tempo que lasciva. Fazíamos amor por horas, sem cansaço, sem tédio, sem pudor, sem os grandes pensamentos que atrapalham as pequenas ações. Nos superávamos sempre, cada re-edição do ato era um volume melhorado, aprimorado, próximo da perfeição, ainda que a perfeição não exista. A simples proximidade dos seus lábios com qualquer parte do meu corpo, da mais inocente à mais íntima, me enchia de uma indescritível energia, uma coisa que me fazia voltar à origem, a todas as reminiscências, outras vidas?, não sei, evito leviandades. Entre um exercício e outro, ríamos um pro outro, calados. Palavras eram desnecessárias e talvez fossem mesmo até perniciosas naqueles dias. Eu amava, mas ainda não me sentia completo. Sentia um imenso vazio, uma agonia, e achava que se nem essa coisa suprema que é o sexo podia me satisfazer, o que poderia?

Invenção 2.
Sou um latifundiário e ela é escrava do meu feudo. Tem a pele marrom brilhante, ancas largas, dentes muito brancos. Mas seu rosto é duro, rude, e a boca é expressiva apenas quando ela quer provocar. Desejo seu corpo, tenho febres à noite, que me fazem levantar da cama, atirar água às faces. Volto, reviro-me, de um lado para o outro. Nada me alivia. Penso em me masturbar, volto ao banheiro. Nada me alivia. Visto uma camisa, ajeito as calças, calço um chinelo e desço as escadas. Ela vive num barraco, aos fundos da propriedade. Dorme com a janela aberta, por causa do insurportável calor que faz aqui. Eu afasto com o pé os objetos que estão no chão, enfio primeiro a perna direita, depois a esquerda. Estou no seu quarto e ouço seu ressonar. Aproximo-me do seu leito e a visão do seu corpo nu, sólido, preto na escuridão da noite me enche de uma emoção e de um medo que me fazem recuar um passo. Meu pé esbarra numa bacia, ela acorda. Sinto que quer gritar, mas não o fará. Ela jamais deixará que eu saia da luta como vencedor. Quando estou sobre ela, penetrando-a, ela não esboça reação, não demonstra a mais ligeira vontade de lutar. Sua apatia, sua entrega, seus gemidos, tudo isso faz parte de um estratagema detalhadamente calculado. Ela sabia que isso ia acontecer. Ela me quer, mas não dessa forma. Ela quer me subjugar, inventer o jogo a seu favor. Quase me arrependo de ter caído em sua armadilha, mas agora é tarde para voltar atrás. Alguns segundos antes de eu chegar ao clímax, junto com ela, ouço-a dizer, a voz mole, contrastando com os duros músculos do seu corpo: "seu branquinho safado".

Invenção 3.
A ignorância da verdade pouparia esses sofrimentos.

"Você dormiu com ele?"

Ela me olha fundo nos olhos e seu silêncio me faz compreender a resposta para a pergunta. Pergunto se ela sentiu prazer. Novamente o terrível silêncio, que eu não desejava ouvir. Sigo na minha pequena auto-punição, pergunto pormenores, detalhes, querendo montar o quebra-cabeça de toda aquela lúxuria, traição, sujeira, animalismo. Estamos entrando por um caminho sem volta. Estou me sentindo confuso. Sinto repulsa por ela, mas ao mesmo tempo quero possuí-la, fazê-la gozar seguidamente, muitas vezes. Quero bater nela, até deixá-la desacordada. Aproximo-me. Sinto o medo nos seus olhos. Mas, de repente, um brilho diferente, ela prevê o que vai acontecer e seu corpo se encoraja. Ela agora me desafia, me encara, ela me deseja, deseja o que vou fazer. Está disposta a encarar com alegria e prazer o seu destino, tirar proveito de cada minuto, de cada movimento, sair daqui redimida, liberta, sem dever nada a ninguém. Arranco suas roupas, arrebento seu sutiã e o elástico deixa a pele das suas costas marcada. Ela tem o corpo esguio, o rosto delicado e fino, um pouco masculino. É bonita, inclusive em suas imperfeições. A boca pequena, de lábios muito finos, percorre meu corpo, com pequenos beijos arrepiantes. Deixo que ela se detenha onde quer se deter, não há porque apressar nada. Não há nada de fúria em nosso derradeiro ato. Estamos apenas cumprindo a etapa que falta, livrando nossa consciência de futuras culpas sobre coisas mal-resolvidas ou inacabadas. Quando ela retorna à minha boca, depois de ter me propiciado um prazer nunca antes sentido, agarro-a pelas ancas e entro nela. Nossos movimentos são um balé bem ensaiado, uma coisa que tenho vontade de filmar e deixar como presente para as próximas gerações. Não sei quanto tempo se passa, nossos corpos suados e seus cabelos finos colados no meu peito, pescoço e rosto, até que gozo dentro dela. Ela inicia um movimento para se virar de lado, mas eu a agarro pelo pescoço. Trocamos um olhar cheio de lembranças, pedidos de desculpas recíprocos, liberações e perdão. Aperto meus dedos sobre a pele fina e macia do pescoço e colo meus lábios em sua testa quando ela começa a se debater. Quando ela enfim se acalma e repousa, depois daqueles eternos quatro minutos, eu a deito com a barriga pra cima, lambo pela última vez cada centímetro do seu corpo, primeiro da testa até a ponta do dedinho do pé, depois a viro de bruços e lambo da nuca até a ponta do calcanhar. Deixo-a de bruços. Cubro seu corpo com o lençol. Visto-me, penteio os cabelos, permito-me derramar uma última lágrima ante a visão da mulher que tanto amei. Saio. O amor é uma coisa má, penso no elevador, e a verdade é nociva ao amor. A ignorância da verdade. Nunca mais vou mexer nessas feridas de novo. Besteira. Sei que vou.

Invenção 4.
Acordo no meio de uma noite fria. Sou um homem solteiro, apaixonado, cheio de medos e frustrações dentro de mim. Amo uma mulher que não me ama. Amo uma mulher que não pode me amar. Não me conformo com isso. Sinto como se toda a minha vida tivesse sido uma preparação para estes momentos que estou vivendo. Sinto no ar uma promessa e tenho medo de que todas as coisas sejam vãs. Desejo-a como se deseja a rendição quando não há mais forças para lutar. Me entreguei a ela, estou em suas mãos e agora é tarde. Ela é meu pensamento, minha vontade, o poder da minha decisão o alimento de minhas paixões, de minha energia, da minha vontade de viver. Mesmo que quiséssemos, seria impossível cortar esses laços.

Re-invenção.
O amor.

Sexta-feira, Maio 08, 2009

O sonho dentro do sonho

Não sei dizer quando foi que eu me apaixonei pela primeira vez. Acho que essas paixõezinhas de criança não contam. Também não sei dizer quando foi que eu comecei a ficar destrambelhado por causa de mulher. Eu já li histórias de amores terríveis, em que os homens se degeneram, se afundam, se matam, se viciam e enlouquecem por causa de mulher. Eu sempre fui um cara racional e acho um absurdo uma coisa assim acontecer. Não consigo entender como o homem, a mais sublime das criaturas, privilegiado pela natureza, dotado de extraordinária inteligência e livre-arbítrio, pode ser tão fraco a ponto de ser destroçado por seus próprios sentimentos.

O fato de questionar essa realidade nunca impediu, no entanto, que eu pulasse de cabeça nos meus sentimentos. Eu nunca tive muita medida das coisas. Não esperava acontecer o mais ínfimo indício de correspondência afetiva para me perder de amores por uma moça que julgasse interessante. Nessas, eu entrei bem. Já ouvi aquele famoso "eu gosto de você, como amigo". Já ouvi coisas mais dolorosas, como "se pudesse escolher por quem me apaixonar, seria por você". Já ouvi muita coisa que me apertou o coração, me desesperou, me fez pensar que nunca, nunca mesmo, eu seria amado por alguém. Tais insucessos criaram em mim um trauma, um sentimento derrotista que eu não me orgulho em assumir, mas que é a pura verdade.

Por esses dias, novamente, eu tive um aperto desses no peito. A diferença é que, desta vez, o buraco é bem mais embaixo. Estou apaixonado, mas não só isso. Estou envolvido por uma pessoa em todas as esferas do meu ser, um sentimento múltiplo, agressivo, por vezes opressor. O sofrimento por amor não é uma coisa inédita na minha vida, como estou aqui relatando. Mas o que estou sentindo desde meados de 2007 - e que só faz aumentar, a cada dia - é sem dúvida a coisa mais aterradora por que já passei. Não tenho a quem recorrer, senão aos amigos - e a essa própria pessoa que, por sinal, é minha amiga. Não tenho como recorrer aos vícios, pois que não os tenho, nem quero contraí-los. Não tenho como fazer uma viagem prolongada, um reexame das minhas contas. Nada. Estou só na estrada, lutando comigo mesmo. Dizendo NÃO ao SIM que sai do meu peito. Hormônios à mil, transtornado, com raiva de ser impúdico quando a minha natureza está gritando, exigindo pronta satisfação aos seus desejos, criando mil desvarios na minha mente, inventando histórias pecaminosas, deliciosas, más. Uma luta árdua, ainda mais pra mim que não sou forte. Querendo manter minha dignidade, meu orgulho, meu respeito, quando o animal que está dentro de mim quer sair, possuir, destroçar, dominar. O cavalheiro que sou, que só tem amor a oferecer, rosas, carinhos, este está tendo uma queda de braço com o homem que eu sou, o famélico homem que eu sou, contidos desejos há muito tempo, fome imensa a saciar.

Eu quero saciar minha fome. Matar e morrer de amor, como se a vida fosse se extinguir em alguns minutos, como se o sonho fosse acabar a qualquer momento, no raiar de um dia cinzento que vai me tirar da cama e me jogar na rua, com nada nas mãos e tudo começando do zero. Eu luto, luto para manter vivo o sonho dentro do sonho, a esperança de olhar pra cima e furar o bloqueio da fumaça, enxergar o horizonte da minha felicidade, alcançar a visão plena do que está aqui para por mim ser fruído, que a ilusão que tomou corpo bloqueia. A ilusão tomou corpo e o corpo é minha ilusão, o corpo é a imagem que se cravou fundo dentro de mim, que me inquieta a alma, me sacode, me causa os tremores e tira o sabor das coisas que eu antes degustava com verdadeira alegria.

Eu estou pronto. Para esquecer. Para me cortar. Para amar. Para fugir. Para me expor. Para ser feliz. Para morrer. Para me redimir. Para tudo.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

Top 5 "Terrores da Infância"

Retomando os famosos "Top 5" que promovia antigamente neste blog (http://sonhosecliches.blogspot.com/2006/09/top-5-sonhos-com-celebridades.html), chego a vocês hoje para, humildemente, compartilhar os fatos que moldaram o meu caráter e me atrelaram a uma vida de medo, angústia e trauma. Com vocês, o Top 5 "Terrores da minha infância":

5. O Dia Em Que Parei o Hino Nacional Brasileiro

Estudava no colégio do Sesi e tínhamos por praxe (como em todos os estabelecimentos ligados ao Instituto Roberto Simonsen) cantar o Hino Nacional às sextas à tarde, diante do hasteamento da amada flâmula verde-loura. Certa feita, fui levado ao pátio da escola com alguns minutos de atraso, por minha mãe - ela trabalhava no ambulatório médico do Sesi, no prédio ao lado. Quando demos conta, as crianças já estavam alinhadas em fila para o início da execução do hino. Minha mãe aconselhou-me a, discretamente, entrar na fila e me juntar aos colegas, talvez com medo de que a barata tonta aqui não conseguisse alcançar a turma depois. Fui então entrando no meio da criançada. Coisas estranhas acontecem, não é mesmo? Pois vejam vocês, eu que nunca fui popular, nem mesmo quando criança, nesse dia fui interpelado pelos meus colegas, como se, a partir daquele momento, todos sentissem necessidade de me saudar, interagir comigo, brindar de forma efusiva a minha existência. Isso gerou um burburinho que foi crescendo, crescendo... Quando dei-me conta das dimensões que aquilo poderia tomar, aconteceu, de súbito: alguém fez um sinal para a mesa de som e o verso "ao som do mar, e a luz..." parou no meio. A diretora, microfone em punho, achou que era muito cívico ensinar a todos uma lição, usando como bode expiatório aquele débil menino magricelo, de óculos, encabulado: "Meu jovem, venha aqui para a frente. Agora, saia. Espere fora da fila. Você está atrasado? Você não respeita o Hino Nacional?". O colégio tinha ensino fundamental e médio, uma boa centena de alunos que ali se reunia para cantar o hino. Eu era um menino de 7, 8 anos de idade. Sabe Deus como eu não me tornei, depois daquilo, um anarquista incurável.

4. Chamada Oral

Raul de Leoni, 5ª Série. A professora de matemática tinha um humor oscilante. E quando estava naqueles dias, era temível. Acontecia de ela chegar, uma vez por semana, e dizer: Chamada Oral. Pegava a lista de chamada, eu era o número 31 (treze, ao contrário).

Em pensamento: "Por favor, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não, 31 não..."
"Vejamos aqui: Número 31, para a lousa!"

Em pensamento: "Ugh!"

Caminhava para a lousa como quem ia para o pelotão de fuzilamento. E não estávamos muito longe disso, a fuzilaria de olhares sobre mim, que todo mundo achava que era CDF, inclusive a professora. Resolvia com esmero o problema ali colocado, suores frios descendo pela minha testa. Professora Sônia, aquela estimável senhora - posteriormente promovida a coordenadora do laboratório de informática (meu 13 de maio particular o dia da promoção dela) - analisava minha resposta, um sorriso irônico no canto da boca, para sentenciar: "Esse menino, com essa cara de inteligente... Que decepção! Não se salva ninguém".

Professora Sônia, esteja onde estiver, saiba de uma coisa: a matemática não salvará nem a mim, nem a senhora.

3. Aula de Educação Física

Eu rezei muito para chover, quando era moleque. A quadra da escola era aberta e, quando chovia, não havia educação física. Quando havia, tudo era para mim um grande rosário variado e inventivo de humilhações. Um dia, era o vôlei, e eu chorando como uma garotinha porque não conseguia sacar a bola por cima da rede. No outro, o futebol, onde eu nunca era escolhido. Basquete, handebol, porra, uma grande merda. Mas o auge do patético foi no dia em que aquela simpática professora de Educação Física, aquela exemplar pedagoga, resolveu ensinar-nos revezamento olímpico, a famosa corrida do bastão. Levou-nos ao Horto Florestal, dividiu-nos em equipes. Colocou-me junto de 3 atletas que, minutos depois, passaram a me odiar. Posicionou-nos nas marcas que riscara no chão e, para mim, disse: "Você fica ali". Caminhei para onde acreditei que ela apontara e ouvi, ríspido: "Aí não! Aqui, seu orelhudo!" Fui chorar escondido, num canto, mas quando você quer chorar escondido sempre tem uma boca aberta piedosa-fingida para dizer "Olha fessora, ele tá chorando", e a nossa querida mestra olhou-me com cara de "puta que pariu, que eu faço agora?" e não fez nada, tocou a aula como se nada tivesse acontecido e eu chorei um pouco sentado no banco de madeira, com as lágrimas pingando no chão arenoso e deixando marcas, como se fossem desenhos. Era tão inocente que só fui descobrir, muito tempo depois, que ela me chamara de burro figurativamente, e não que eu tinha orelhas grandes, como entendi no momento.

2. Você Tem Poucos Dias De Vida

Logo que mudei para o condomínio em que moro ainda hoje, fiz amizade com um grupo de garotos asquerosos, que mijavam na escada de incêndio e jogavam potinhos de danoninho em qualquer lugar. Um deles me disse que eu tinha uma doença que ia me matar em poucos dias e riscou minha barriga a caneta, indicando os pontos onde deveria ser feita a incisão cirúrgica. Eu achei que morreria daquela doença desconhecida e não tive coragem de contar nem mesmo aos meus pais, mesmo quando eles interpelaram o porquê de eu estar tão estranho.

Não sei o que esses moleques fazem hoje em dia, mas espero que a gonorréia deles esteja muito bem diagnosticada.

1. Professora Carrasca

Terceira Série, Sesi. Primeiro dia de aula, a professora se apresenta, deixando claro que a época da inocência acabou:

(Uma aluninha desavisada): "Tia..."

"Tia não! Tia não! Não sou irmã da tua mãe nem do teu pai. É professora!"

E a professora, cujo nome me esforço em recordar mas não consigo - mas que chamarei de Professora Carrasca - fez do ano de 1993 um ano terrível para mim. Enquanto o país atravessava o final da recessão do finado Governo Collor, eu relutava em ir para a escola, enfrentar aquele amor de pessoa. Eu vinha de um sistema lindo, de fábula, em que a professora do segundo ano era uma velhinha simpática, alegre, enfeitada, sacudida, que dava nota boa pra todo mundo. Não estava preparado para encarar aquela realidade cruel. Um belo dia, cheguei para a aula e vi todo mundo com um saquinho na mão com cartolina recortada, que usaríamos para mexer com frações, ou algo do tipo. Os colegas das carteiras de trás e dos lados, ao ver que eu não tinha feito os meus recortes - porque não tinha entendido bulhufas do que era pra ser feito e tinha vergonha de perguntar - apressaram-se a recortar para mim, numa atitude totalmente solidária e bonita. Mas vã. A mulher entrou na sala e flagrou a pequena cooperativa trabalhando. Lembro-me, ainda hoje, dela dizendo que não tinha, naquele momento, nenhuma dó das minhas lágrimas, que eu que deixasse de ser vagabundo. Pegou pelos ombros um outro aluno - que posso apostar que hoje em dia deve ter seios de silicone industrial e morar no Edifício Danúbio, na Bela Vista - e o gabou durante longo tempo, como aluno exemplar e como contramedida desse displicente Rafael da Cunha - eu era assim chamado nos primeiros anos escolares. Minha mãe deve ter ido ter com ela, depois dessa exposição desnecessária, desse sermão longo dado para toda a turma e que marcou a mim durante todos esses anos. Porque depois ela maneirou um pouco. É verdade que ficou doente e afastou-se por mais de um mês, período em que eu passei a acreditar na existência de Deus, antes de voltar mais light para terminar o ano letivo. Eu saí da terceira série, mas essa terceira série, de algum modo, nunca saiu de mim.

Por isso eu acredito que, se uma pessoa nasce com vocação para ser vendedora em loja de lingerie, não deve cursar o magistério. Afinal de contas, quantos pusilânimes ainda vamos ter por pura e simples falta de sensibilidade daqueles que tem como responsabilidade guiar nossos primeiros passos?

Para esta querida e malcomida professora, se hoje a encontrasse, diria algumas coisas, que meus 9 anos de idade não me permitiram dizer naquele dia. Coisas que ela não deve se lembrar, mas que eu nunca consegui esquecer. Mas, deixa pra lá.


E por hoje é só.


Sábado, Abril 18, 2009

Sobre o cara que te espera

E então, num dia desses, você vai conhecer esse cara. Não dá pra dizer bem o que a passagem dele pela tua vida representará. Como diz a fé pública, "nada acontece por acaso". E ele aparece, esse menino tímido, bobo, sem assunto com estranhos. Esse menino normal, que se acha o patinho feio, mas não é feio. Nem mesmo é bonito. É normal. É passível de fazer com que você se apaixone por ele, mas você precisa ser sensível pra ver que vale a pena.

Porque, convenhamos: ele não é lindo de morrer, não é forte, não é rico, não se veste assim tão bem (ainda que tenha melhorado bastante nesse quesito), não tem uma boa cantada, nem aquele olhar 43. É possível que ele fale com você olhando pra outra direção, pro copo de cerveja, pros carros passando na rua. Ele não é seguro como certos caras, embora seja mais inteligente que a maioria deles. Não que seja um prodígio mental, mas tem uma cabeça boa, senso crítico razoável, não passou a vida toda pensando em tunar carro, malhar o corpo, pegar mulher na balada, fumar maconha pelos cantos, comprar roupa em loja de grife. Ele leu um ou outro livro, viu um ou outro filme, ficou se achando "intelectual" e depois ficou puto quando viu que não era. "Quanto mais aprendo, mais ciência tenho da minha ignorância". Ele não sabe a citação literal nem qual dos gregos disse isso, mas pouco importa. Ele tá cagando pros gregos, porque não anda em círculos pseudo-intelectuais e não precisa impressionar ninguém. Esse cara gosta de simplicidade, da inteligência sem forçação de barra que algumas pessoas tem. Não gosta de competição: quem tem a melhor roupa, o maior QI, o maior pinto, mais dinheiro na conta.

Um dia - há de chegar logo - você vai cruzar com esse cara em alguma esquina. É improvável que seja numa fila de banco, num ônibus, no meio da multidão. O que vai acontecer é uma situação especial, única, que vai te botar frente a frente com esse cara. De repente, ele pode nem sentir atração por você, e muito menos você por ele. Mas você pode achar fofo o jeito dele falar, o senso de humor boboca que poucas mulheres entendem, as coisas incovenientes que ele diz sem querer e as muito convenientes que ele diz sem saber que é sábio em muitas ocasiões. Todo mundo que o conhece acha que ele é um bom conselheiro. Talvez nem tão bom conselheiro, mas sem sombra de dúvida um bom ouvinte. Ele já disse coisas ásperas e venenosas pras pessoas e quando fez isso, a frase ficou marcada na memória, porque é raro ele ferir alguém. Ele é, na maior parte do tempo, doce, gentil, atencioso. Quando está de saco cheio, é chato, fatalista, nitroglicerínico. Mas aí é mais fácil ele se auto-depreciar do que agredir alguém.

Você deve, minha cara, tomar cuidado quando ficar amiga desse rapaz. Algumas coisas você precisa saber de antemão. Precisa saber que ele gosta de se fazer de vítima. Que é dramático e exagera as situações. Que quando se apaixona, mergulha de cabeça, sem conhecer limites, pudores, precauções. Mas, ao mesmo tempo, tem uns traumas no coração, de gente que não soube gostar dele como ele merecia, que podia ter dado uma flor, mas lhe deu um soco, que não teve sensiblidade e bondade pra dizer "eu te amo" quando ele mais precisava ouvir. Sei que com você será diferente. É preciso que você saiba que esse menino quer abraçar o mundo, quer ser feliz, quer irradiar alegria e ser sempre uma presença marcante na vida das pessoas. Esse menino toda vida foi coadjuvante, às vezes figurante, e agora quer ser protagonista de uma vida linda, ensolarada. Tem tantos sonhos que, de tão simples e bobos, lhe parecem impossíveis. Tem vergonha de dizer o que sente, mas o faz sempre de forma corajosa, de peito aberto, sem esconder o medo, a euforia, a saudade, a fraqueza. Já disseram que esse rapaz é falso, mas quem disse não o conhecia bem e lhe magoou profundamente. Esse moço é o mais sincero que existe no planeta, e mesmo quando mente, é pra ser fiel ao que acredita.

Linda, um dia você vai conhecer esse homem, que gosta de música, de manhãs nubladas, de bons papos, de rir por besteiras, de se dedicar às pessoas que ama. E vai ter que ter paciência com ele, mas por outro lado vai se encantar, vai se sentir amada, cuidada, como nunca foi.

Esse dia está chegando. E enquanto isso, eu vou sonhando com ele.

Terça-feira, Abril 14, 2009

Eu não sei

Eu não sei dançar. Não sei dirigir. Não sei cozinhar. Não sei jogar bola. Não sei jogar vôlei, nem basquete, nem golfe, nem rugby, nem tênis, nem peteca. Não sei empinar pipa.

Eu não sei falar inglês. Não sei falar francês. Italiano. Espanhol. Alemão. Japonês, javanês, dialeto, mandarim, húngaro, não sei latim nem grego.

Eu não sei assoviar no ritmo, não sei estalar os dedos, não sei falar nenhum dos trava-línguas. Não sei ver as horas em relógio de ponteiro, não sei de cor a tabuada do nove, não sei qual é a capital da Nova Zelândia, nem sei direito onde fica a Nova Zelândia. Não sei dizer se uma palavra é paroxítona, não sei ler partitura, não sei onde fica a bridge na letra da canção. Eu não sei tocar violão. Não sei tocar piano, não sei tocar flauta, nem bongô, nem cuíca, nem tamborim, nem pandeiro, nem chocalho, nem frigideira, nem instrumento nenhum do mundo, instrumento daqui, de Marte ou da estrela Órion, não sei tocar porra nenhuma.

Eu não sei quem foi Molière, nem Voltaire, nem Joyce, nem João Antônio. Eu não sei quem foi São Tomás de Aquino.

Eu não sei cavalgar. Não sei nome de raça de cachorro, muito menos de gato. Não sei quantas patas tem um escorpião, não sei se a gente diz pata ou perna pra inseto, não sei de que se alimenta uma anta.

Eu não sei pescar, não sei jogar truco, não sei mentir.

Eu não sei contar piada direito, não sei memorizar citação de autor famoso, não sei com quantos paus se faz uma canoa. Não sei com quantas canoas se faz uma nau, não sei porque o barco do Colombo se chamava Santa Maria. Não sei porque a loja de ternos se chama Colombo, mas isso nem quero saber.

Eu não sei costurar, não sei rezar, não sei atirar com espingarda, nem com carabina, nem com revólver, nem com pistola, nem com estilingue, nem com arco-e-flecha, nem com arma de chumbinho.

Eu não sei como se faz pra tirar passaporte, pra abrir firma de empresa, pra conseguir visto de trabalho no estrangeiro, licença pra abrir loja no centro, carta de crédito, antecedentes criminais.

Eu não sei nada de hardware, software ou surfwear. Não sei andar de skate, não sei enrolar baseado, não sei fazer serviços de carpintaria. Eu não sei trocar disjuntor, consertar liquidificador, cano furado, válvula de descarga bichada, arruela emperrada.

Eu não sei seduzir, conquistar, convencer, xavecar, pechinchar, negociar, persuadir, embromar, enrolar, ganhar tempo, cozinhar em banho-maria, deixar de molho, passar a perna, até logo, pt saudações, como diria meu pai.

Eu não sei fazer balancete, planilha, contas a pagar e a receber, tratar com fornecedor.

Não sei pedir dinheiro na rua, roubar dinheiro na rua, roubar dinheiro no banco, no supermercado, no banco imobiliário.

Eu não sei se a mulher tá bem vestida, bem maquiada, se calça preta combina com blusa verde e sapato verde, se ela engordou, emagreceu, se o mundo é mau ou bom.

Não sei ser garanhão na cama, nem recitar poema do Drummond depois, nem música do Djavan. Não sei o que diabos o Djavan quer dizer, afinal.

Eu não sei (mais) andar de bicicleta, criar estorinhas, caçar tatu-bolinha, fazer dobradura com papel sulfite.

Não sei amar. Não sei odiar também, mas isso nem importa. Eu não sei amar.

Eu sei escrever, apenas. Malemale.