Sexta-feira, Outubro 30, 2009
Vou lhe contar uma coisa, Carlos, todo mundo sempre achou que minha vida é fácil porque eu sou muito rico, mas a vida do rico é mais difícil que a do pobre. O pobre pega ônibus lotado e trabalha o dia todo, mas quando ele chega em casa consegue se desligar do mundo, jantar em paz com a família, assistir as 3 novelas que passam de noite e, lá pelas 10 horas, bota a cabeça no travesseiro e dorme feito uma pedra. Eu não. Eu estou com uma úlcera nervosa e não passa um dia sem que eu receba ligações no celular com algum problema da empresa para resolver. Perco assim as poucas horas do dia que poderia passar fazendo alguma coisa agradável. Para piorar, já tem vários meses que sofro de insônia crônica e já aconteceu de eu passar várias semanas seguidas dormindo apenas três horas por noite.
Carlos, você é homem e deve saber como é horrível a sensação de não satisfazer sexualmente a sua parceira. Pois eu estou imprestável na cama, tanto com minha mulher quanto com minha amante. E o pior, Carlos, é que não consigo me livrar de nenhuma das duas. Minha mulher, se eu lhe der um chute, leva tudo o que eu tenho. E, de qualquer maneira, ela é uma boa mulher, uma boa mãe, uma esposa lúcida, econômica, discreta, elegante, filha de um homem fantástico... Eu já lhe disse a adoração que tenho pelo meu sogro, o Dr. Eduardo Telles Maia? Comecei como boy na empresa dele, ele me deu tudo, é um homem fantástico, um benemérito, me casou com a filha dele, ensinou tudo o que eu sei, me tirou da cadeia, pagou advogado, abafou o caso em que estive envolvido, do qual não quero falar agora... Também em consideração ao Dr. Eduardo é que nunca fui capaz de magoar a Lúcia, ela também ama o pai, confia muito nele, conta tudo para ele.
Mas, Carlos, o fato é que tem dois meses que eu não consigo fazer a Lúcia ter um orgasmo. Me sinto um imprestável, quanto mais ela se mostre compreensiva. Compreensiva mesmo nos dias de puro estresse, em que meu pau não levanta de jeito nenhum, e ela faz uma cara compassiva e me diz "meu bem, isso acontece, você está trabalhando demais, deixa que eu te faço uma massagem". A massagem da Lúcia é péssima, me deixa inteiramente moído. Até prostituta de cinquenta reais já me fez massagem melhor.
Minha amante é mais jovem, mais atraente e totalmente submissa, como deve ser uma amante. Nunca me ameaçou nem chantageou, mas tenho medo dela. Conheço coisas desabonadoras sobre seu passado. Nunca se deve confiar numa mulher, mesmo que ela seja uma mulher muito religiosa, aliás, dessas é que mais devemos desconfiar, sempre me disse o Dr. Eduardo, que perdeu a esposa muito cedo, porque a mãe da Lúcia foi levada pelo câncer quando ela tinha nove anos de idade. É a pura verdade. Você sabe, Carlos, o quão pérfidas e manipuladoras são as mulheres. Lúcia? Também é. Sei o que disse há pouco, que ela é uma santa mulher e que, por isso, não a chuto. Mas também Lúcia é manipuladora, e pérfida. E me obrigou a se casar com ela usando o pai, ela sabia que eu faria qualquer coisa que me pedisse o Dr. Eduardo. O Dr. Eduardo me chamou um dia no escritório, me disse "pega, experimenta um desses, mandei trazer de Cuba" e fumamos por um bom tempo, os dois calados, o Dr. Eduardo sempre pensa muito antes de dizer alguma coisa, e enfim ele me disse "Eu faria muito gosto que você namorasse a Lúcia", e um ano depois eu estava entrando na igreja, uma cerimônia linda, a Lúcia escolheu as músicas, os arranjos, tudo, ela tem excelente gosto, e a festa foi arrasadora, reuniu a melhor sociedade da época, e eu ainda era um bichinho do mato, arisco, me cagando na frente daqueles figurões. É controverso isso, porque sempre fui muito inteligente, seguro de mim mesmo e com tino pros negócios, mas no começo eu não me sentia à vontade, sentia como se tivesse invadido a vida de outra pessoa, uma vida que não era para mim, você está entendendo o que estou dizendo? Os anos se passaram e eu fui amadurecendo aquilo, creio que com a ajuda da Lúcia e do Dr. Eduardo, e me esqueci completamente que já usei um dia meia furada, que já comi pão com mortadela no balcão da padaria e que já fui ao baixo meretrício, comer aquelas baianas com tatuagem no rêgo. Já lhe falei o quão escroto eu acho que é uma mulher ter tatuagem? A Lúcia tem a pele lisinha, branca, uma tez maravilhosa, mesmo agora, com quase cinquenta anos. Nossa filha queria fazer uma tatuagem, eu ia proibir, mas Lúcia me disse "querido, deixe que eu falo com ela", e ela demoveu minha filha da ideia, não sei quais argumentos usou, mas nunca mais se falou no assunto. Lúcia é uma boa mãe, aliás, uma ótima mãe.
Sinto que estou fugindo do assunto. Carlos, minha vida está um inferno. Estou perdendo tempo, dinheiro. Tempo é dinheiro, e o tempo é o senhor da razão. Logo, o dinheiro é o senhor da razão. Isso talvez explique porque eu defino minha vida, sempre que perguntado, como "uma loucura". Minha terapeuta quer que eu tire férias, ela acha que é simples assim, que eu posso reunir meus diretores e dizer "senhores, eu estou tirando férias, vou para algum lugar no Caribe ou no nordeste do Brasil salgar a bunda, e deixar vocês explodirem com a empresa na minha ausência". Sabe quando o Dr. Eduardo tirou férias, desde que fundou a empresa que eu hoje dirijo? Somente no dia em que me casei com Lúcia e assumi as funções dele. Desde então ele vive férias permanentes, mas está sempre dizendo que a vida dele está uma bosta. Isso me desespera. Será que minha vida será permanentemente uma bosta também? É o que lhe digo, o pobre trabalha a vida toda, mas um dia se aposenta, porque Getúlio Vargas deu esse direito aos pobres. O rico não se aposenta, a gente não se aposenta de um padrão de vida.
Carlos, você sabe que é como um filho para mim e se te deleguei tantas responsabilidades, é porque sei que você dará conta. Mas entenda uma coisa, já que você e Karina, minha amada primogênita, vão começar uma vida agora: casais com filhos não podem morar num loft. Cachorro não é filho, eu não sou avô de cachorro. E quero que você durma todas as noites. Você pode vir aqui? Estou me sentindo muito só.
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Sensações
Muita luxúria. Muita energia procurando um canal pra sair do meu corpo, da minha mente, dos órgãos saudáveis. O perfeito funcionamento físico, alavanca bem lubrificada.
Labirinto minha mente. Ideias em espiral. Muita luxúria. O Anjo Pornográfico. Perdão a Nelson Rodrigues pelo epíteto que estou roubando.
Labirinto e muita bandalheira na minha cabeça. Cheiro, forma e cor. Curvas. Vontade de tatear o convexo da cintura de certas mulheres e agarrar firme a carne, como um náufrago agarraria a tábua de salvação. Apertar nádegas, bulir coxas, escorregar a mão por locais cheios de sombra, mistério, aroma e fantasias. Despir-nos. Das convenções, das roupas, do certo e do errado.
Não. Nessa fantasia não há mais espaço para absurdos. Quero um sexo limpo, perfeito, romântico e antirromântico. Quero o amor. O amor que não existe, e jamais existirá. O amor que não é apenas o ato, mas a justificativa.
Quero acordar sem sobressaltos. Quero que o sonho seja mais compensatório. Quero ver o mundo de novo com os olhos de uma criança e, ainda, quero ver o sexo com os olhos de uma criança. A eterna criança que vê a vida pelo buraco da fechadura. (Novamente: perdão, Nelson). A eterna criança que sou. Uma criança-máquina, alavanca bem lubrificada. Mas que só funcione a seu bel-prazer.
Quinta-feira, Setembro 17, 2009
Sobre as mulheres bonitas de lugares feios
Esta cidade está cheia de moças bonitas. Brotam de todos os cantos, cruzam meu caminho, e eu troco olhares com as nádegas delas. Olho tímido, de esguelha, no início. Mas os glúteos maravilhosos dessas damas me encaram provocadores, petulantes, com aquele brilho que só encontramos no olhar dos apaixonados. É um ir e vir de deixar maluco. Uma coisa que, quando some no horizonte da visão, deixa vazio, tristeza e saudades.
Mas não apenas bundas. Há também as moças pequenas e singelas, que você acha que tem dezesseis anos, mas mesmo assim quer botar no colo, com boas e más intenções. Essas eu encontro nos ônibus. Algumas querendo ser mulheres, com sua maquiagem, decotes e olhares calculados. Outras querendo eternamente permanecer molecas, de tênis all-star e discrição, mas indiscretas mesmo assim, pela feminilidade natural. É uma coisa bonita. Eu gosto de gostar das mulheres.
Ando, é bem verdade, triste. Sozinho, como um legítimo poeta que não sou. E meu coração se enternece mais facilmente - se é que esse babaca alguma vez encontrou dificuldades para se apaixonar - por essas coisinhas. Miudezas e grandezas. Imagino, confabulo, o jeito de ser de cada uma delas. Das que vi pela primeira vez e das que vejo todos os dias. Teriam alguma graça no falar, no andar, no jeito de expressar as ideias? O coração tem generosidade? E a malícia? Quanto de malícia há na menina, na mulher? Quais coisas sacanas você tem para me dizer, para me surpreender?
Já vi mulheres bonitas nos lugares mais feios. Flores que nascem no limo. Hoje mesmo, andando longe de casa, as vi assim, pela janela do ônibus, no meio do cinza, indo ou voltando de algum lugar. Que bundas, que pernas, que seios! E olhos, e boca, cabelos, adornos. Palavras. Não, palavras não ouvi. Meu contato com o mundo assim tem sido, apenas visão e olfato, e o tato no vidro. Block.
Penso no que virá. Em quem anda em algum lugar por São Paulo, ou na América Latina, ou nessas quebradas do mundaréu, esperando (ou não) a minha presença, o mel e o fel das minhas palavras. Palavras bonitas de um quase poeta, vãs. Palavras vãs, desperdiçadas todos estes anos, de bater em ouvidos duros, ou corações duros, ou os dois. Palavras produzidas para comover e conquistar mas que até hoje só encabularam ou, no máximo, lisonjearam. Palavras sacanas e pervertidas de um menino santo e tímido.
Mas afinal, onde anda a poesia?
Não, não mais direi "bunda". Direi "encantos". Sobre mulheres que me seduzem com seus... encantos.
Segunda-feira, Setembro 07, 2009
Para você entender POR QUÊ eu não deveria ter um blog
(Auto-)Espinafragens:
A) Guevara nos enganou. Cadê aquele mundo melhor em que eu acreditava, quando tinha 17 anos? Para onde foram Bandeira, Vinicius, Drummond e todos os poetinhas que a gente tinha em alta conta? De repente, todos viraram velhos chatos e imprestáveis. Pedantes insuportáveis.
B) O PT nos enganou. O PSTU também. Mas nem vou discorrer sobre o tema, porque isso é azar meu.
C) O romantismo me fez perder um tempo precioso. Porém, também não estou e nunca estive apto a ser um hedonista. O meio-termo, como todo meio-termo, é chato, morno, burguês e comodista. Estou mergulhado no tédio da espera e não tenho mais sequer a raiva e o inconformismo de sempre para aliviar minha consciência. O romantismo me deixou chupando o dedo, com pinto duro e cara de trouxa. Rá, bem feito!
D) Meus sonhos transmutaram-se. E meu coração, como não poderia deixar de ser, tornou-se burguês. Meus pensamentos estão naquilo que as mãos humanas podem tocar, que o dinheiro pode comprar e que ninguém pode contestar. Vil metal? Quem fala em vil metal não deixa de passar no ECAD, pra pegar o seu. Quando não está no Uruguai. Existem as amizades e o amor, é verdade. Mas existe o dinheiro, e não podemos mais ignorá-lo.
E) Um ânus. Procura-se um ânus em estado de novo, para ser fruído. Paga-se bem.
F) F? F de foda.
G) Às vezes eu tenho vontade de socar todo mundo. Bater bastante mesmo, deixar marcas, tirar sangue, deixar hematomas, roxos, cortes, cricatrizes, bater até a pessoa começar a rir, com os dentes balangando dentro da boca. Não somente nos inimigos (que não tenho) e nas pessoas desprezíveis, mas também nos amigos. Tenho vontade de fazer como aquele doido da novela e dar raquetadas nas pessoas. Rapaz, não sei por que isso. Tem gente que tem vontade de se lacerar, flagelar. Outros, de dar a bunda. Outros, de furar o corpo todo com piercings e porcarias desse tipo. E outros, ainda, de depredar o patrimônio público, cometer pequenos delitos, maltratar os animais. Eu não. Eu tenho vontade de bater. Não fosse tão franzino, compraria um saco desses de boxeador pra dar umas porradas. O caminho do pacifista é a porrada. Do covarde, a violência. É isso? Deve ser isso.
H) Quem me cobra a felicidade é feliz?
I) A Bahia não me deu régua e compasso, mas São Paulo me deu o andar apressado, o amor pelo céu nublado e um sentimento cínico de análise permanente das pessoas e situações. Que nada mais é do que recalque por não ter nascido nessas belas terras tropicais, banhadas pelo céu e mar, com povo hospitaleiro e festa o ano inteiro. Mas, no fundo, no fundo: grandes bostas isso.
J) Tem coisas que só eram boas dez anos atrás: o Galvão Bueno, a Suzana Vieira, a Britney Spears. Enfim, tudo que é esporrento, depois de uns dez anos, perde totalmente a graça.
K) Tá gostoso, tá?
L) Pré-sal. Pré-sal, pré-sal. O Lula não sabe falar de outra coisa, não?
M) Essa semana, em mais de um dia, defequei por duas vezes no período de 24 horas. Bolo fecal de consistência sólida, cor parda-escura, pequenas manchas marrons ao longo do material de formato cilíndrico. Canudos longos, porém finos.
N) Quem sou eu? Quem sou eu além da imagem que transmito? Sou, como todo mundo, maldoso. Faço juízo de valor, magoo até quem gosta de mim. Isso todo mundo faz. Mas como eu sou mais besta que todo mundo, as pessoas exploram bem meu sentimento de culpa. Certas elas.
O) O fim. Acabou a feira: chega de abobrinha.
Sábado, Agosto 08, 2009
Confissões Inconfessáveis de um Romântico Incurável
Eu gosto de mimar e ser mimado.
Gosto de moças bonitas, mas não basta ser bonita. Precisa ser generosa.
Precisa ser inteligente também. Não do tipo intelectual, propriamente. Mas inteligente a ponto de ser graciosa até quando não sabe uma coisa e pede explicação.
Eu me desmancho com sorrisos e carinhas de quem acha que aprontou. Sou apaixonado pelas menininhas.
Gosto de mulheres calorosas. Cientes do que querem. Mulheres que saibam conduzir e saibam serem conduzidas. Que, na cama, saibam exatamente o que fazer pra me tirar do sério, me enlouquecer, me deixar de joelhos, tirar de mim a última gota e o último urro.
E que saibam se entregar, que se permitam ter comigo todo o prazer que posso dar. Nada me faz melhor do que saber que consegui dar prazer. Eu adoro dar prazer, em todos os sentidos.
Eu gosto de tudo que deixe lembrança boa. Uma frase impensada, uma declaração inesperada. Uma brincadeira que, de repente, ganha uma conotação séria.
Gosto de proteger. De ser gentil. De me aperfeiçoar cada vez mais na arte do galanteio. Mas gosto também de esquecer, de vez em quando, de fazer uma gentileza, e então ser cobrado por isso. Cobrado com um sorriso ou um muxoxo, cobrado daquele jeito especial que só as mulheres sabem fazer. Pra me levar pra onde bem querem.
Eu acredito na força e inteligência das mulheres. Acredito também na malícia e perfídia delas. Tenho com elas uma relação de amor, sem ódio. Ou de pouco ódio.
Gostaria de poder amar todas as mulheres do mundo.
Inclusive as feias. Já amei algumas feias. Mas elas, mesmo sendo feias, não me amavam. Talvez porque não fossem feias, ou porque tivessem ficado bonitas no meio do caminho. Não importa. Amar uma feia é uma coisa diferente. É uma coisa saborosa também.
Amar as bonitas é doce e trágico. É esquisito. Ainda mais as que não são apenas bonitas: já amei mulheres incríveis, por dentro, por fora, por todos os lados, em todas as dimensões.
E amo, hoje, a mais incrível de todas elas. A que melhor soube me seduzir, voluntária e involuntariamente. A que, com uma palavra, um olhar, ou um sorriso, me faz ter vontade de pular do 8º andar daquele prédio e cair no chão apoiado nas quatro patas, como um gato, na rua suja de um dia sujo. A Mulher de Vidro. Todo o prazer que pode estar contido numa mulher que se deseja. Uma deliciosa dançarina caribenha que frequenta meus sonhos, que carrega minhas vontades, que é depositária do meu mais insuportável desejo. Quando penso nela, no que veio e no que virá, tenho a impressão de que o tempo vai parar de repente, e estaremos os dois sozinhos, frente-a-frente, sem obstáculo no caminho, sem nada pra reter aquilo que, de alguma forma, está marcado pra acontecer.
Somente Deus sabe as contradições que passam pela minha cabeça e como essa onda volta cada vez mais forte pra praia, devastando o que há de sensato, perfeito e aceitável.
Quero o sussurro, o gemido e a voz arfante dessa mulher nos meus ouvidos, como uma sinfonia, indicando que é possível enlouquecer e depois voltar à razão, pecar e depois ser absolvido, ter prazer furioso para depois voltar à paz daqueles que tem por meta só andar pelos lugares que têm vontade.
Quero ser seu cúmplice, seu amigo, seu irmão, o cais onde o barco ancora antes de cruzar um oceano de coisas turbulentas, viagens longas e sem previsão de volta, aventuras boas e más por rotas perdidas.
Vem. Vem comigo. Vem agora. Vem que eu tô esperando.
Sábado, Agosto 01, 2009
O caminho é uma reta e desemboca onde eu quero chegar
Quando penso em voltar, eu penso que não vai ser possível. Mas aos poucos, isso está deixando de me deprimir. Só quem anda pra trás é caranguejo, e o finado Michael Jackson, quando fazia o Moonwalk.
Mas às vezes, me dá uma bruta de uma saudade. Saudades de pessoas, de lugares, de coisas pequenas, de sentimentos. Saudade de uma música, de um cheiro, de uma arrebatamento de paixão, um porrezinho, um poeminha mal-escrito. Mas eu penso comigo mesmo: era mesmo essas grandes coisas? Não andei por acaso superestimando os fatos? É certo que sim. Todos esse amores nunca me deram camisa. Agora eu decidi que quero me agarrar apenas aos sonhos possíveis. Nada de bobeira, nada de pensar na morte da bezerra.
Amadureci? Não sei. Às vezes ainda tenho uns fricotes e atitudes de menino mimado. Que eu nunca fui, diga-se de passagem. Fecho a cara, faço bico e isso em mim fica cômico, provoco riso quando o objetivo era provocar o outro. Um adulto que parece criança. E ainda por cima, não sou mais aquele jovem que tinha um pôster do Che no quarto e acreditava naquilo que todo mundo acredita quando tem 17. Só quero ganhar meu dinheiro, fazer minhas coisas. Eu sabia que ia ser assim, que eu ia me tornar isso. Vi acontecer com naturalidade, apenas achava que sentiria remorsos quando minhas ideologias sumissem. Mas, nem sinto. Durmo como uma pedra, não dou mais esmola, e se tenho raiva dos ricos, deve ser mais por recalque do que por algum sentimento justiceiro.
Eu penso o tempo todo em todas as pessoas que conheço. Suas qualidades, suas limitações, as coisas que vivi junto com elas. Nossa, como eu amo o ser humano. É estranho isso. O ser humano é um bicho cansativo, chato, derrotista. Mas, ao mesmo tempo, meu coração se enche de alegria quando penso nos meus amigos, na minha família, na minha infância. Quando eu penso em todas as doenças que eu tive em menino, que podiam ter me matado. Quando eu penso em como eu cresci, em como sou querido, admirado. Não por muita gente, é verdade, mas por pessoas que importam pra mim.
Nem sei, no fim das contas, o que estou querendo dizer. Mas é importante dizer.
Quinta-feira, Julho 16, 2009
Pela bola sete*
O Bereco era do devagar. Não queria nada com o batente. Seu negócio era sinuca. E nisso ele era cobra. De taco na mão fazia embaixada. Conhecia os trambiques do jogo e sabia como entrutar o parceiro. Então estava sempre com a bufunfa em cima. Sabe como é o lance. Sempre tem um panaca pra desconhecer o nome do mandarim. E o Bereco ajudava. Se vestia como um Zé Mané qualquer. Neca de beca tranchana. Isso espanta o loque. O babado era se fazer de besta. Tirar onda de operário trouxa. Desses que dá um duro do cacete de sol a sol, se forra de prato feito, e na folga vai fazer marola em boteco. Daí sempre tem um malandrinho pra tomar os pichulés do otário. Se fazer passar por coió era o grande trambique do Bereco. Com essas e outras ele engrupia até muito vagau escolado.
Até no Bar Seleto de São Vicente, ponto certo dos grandes tacos do mundo, o Bereco deu esse deschavo. E grudou. Pensaram que ele era pão-ganho e ele tomou o sonante dos pintas. E assim o Bereco ia remando seu barco em maré mansa.
Mas é como diz o Mestre Zagaia:
- Um dia é da caça, outro do caçador.
E se o Zagaia diz, é que é. Todo o mundo sabe disso. Porém, acontece que, como não dá pro nego tocar fogo no mar pra comer peixe frito, tem que botar pra quebrar. E o Bereco ia firme. Só ganhando. Um pato atrás do outro era depenado. Sem dó. Que nas paqueras da vida é cada um pra si. Mas chegou a virada.
Era fim de mês. Dia de pagamento da Refinaria de Petróleo. O Bereco que estava por dentro se picou pra Cubatão. Se plantou num salão dos bordejos da refinaria e ficou na moita. Logo foi baixando a freguesia. Tudo de capacete de lata. A batota estava contentona de envelope no churro. E o Bereco só espiando o lance. De vez em quando tirava um paco de nota pra pagar uma Coca-Cola. Era a milonga. Logo um capacete de lata mais afobado se assanhou com o dinheiro do majura. Sentiu a muquinha pega e quis tomar. Mediu o Bereco e foi no xaveco do pinta. O Capacete de Lata tinha um joguinho enganador. Desses que é bom em mesa de sindicato. Mas levou fé em si e nenhuma no Bereco. Encarnou no moço:
— Como é, parceiro? Quer fazer um joguinho?
O Bereco não deu pala:
— Jogo nada.
O Capacete de Lata cercou:
— A leite de pato.
O Bereco deixou andar:
— Se é de brinquedo, vamos lá.
E começou o jogo. Bereco sentiu o parceiro e tirou de letra. O Capacete não sabia nada. O Bereco deu o engano. Os primeiros dez mirréis, os segundos e os terceiros o Bereco empurrou pro trouxa. E se fez de bronqueado. Partiu pros vinte, pros cinqüenta e pros cem mil. O Capacete de Lata estava se deitando. Era seu bilhete premiado. Com o dinheiro que ganhou do Bereco, o seu ordenado já tinha um milheiro no porão. Daí o Bereco selou:
— Ou tudo ou nada.
O Capacete de Lata nem balançou.
— Um milhão na caçapa.
Todo o mundo de botuca ligada na mesa. O Capacete saiu pela cinco. Errou. O Bereco se tocou que o xereta estava nervoso. Teve que maneirar. Cozinhar o galo. Senão ia ficar escrachado o perereco. Errou na cinco que estava cai não cai. E o joguinho ficou de duas muquiranas. Só na bola da mesa. O Bereco não embocava. Só colhia as mancadas do Capacete de Lata. Se o bruto batia uma três, o Bereco fingia que era sem querer, e deixava uma sinuca de bico pro inimigo. E na catimba do Bereco e no virador do Capacete de Lata o jogo foi comprido pacas. Os sapos nem chiavam. Seguravam as pontas. Era tudo torcedor do Capacete de Lata. Trabalhadores da refinaria de petróleo de Cubatão. Mas o Bereco nem estava aí. Já contava com o dinheiro da caçapa.
Aí chegaram na bola sete. Só a sete estava na mesa. E o jogo estava por ela. O Bereco folgado, muito à vontade encostou a negra na parede. O capacete de lata tremia, suava. Estava com o motor batendo acelerado. Fez mira. Começou a pensar que tinha quatro filhotes no seu chatô, aluguel de casa, rango, escola, remédio e os cambaus. Pensou no que ia dizer pra mulher. Com a cabeça cheia de minhocas deu na cara da bola. Uma chapada. A negra rolou para um lado, a branca pra outro. O Capacete de Lata sentiu um alívio. Pelo menos acertou na bola. Mas o recreio durou pouco. Quando as bolas pararam a sete estava na boca da botija. Pedindo pra cair. E a branca no meio da mesa. Ninguém por mais cego que fosse errava aquela. O Bereco sorriu. Deu a volta na mesa devagar. Bem devagarinho. Enrustido, sem dar bandeira ia gozando as fuças do otário. O Capacete de Lata só faltava abrir o buê. Deu a volta e ficou atrás da caçapa em que a bola ia cair. O Bereco deu uma dica de leve.
— Vai secar?
O Capacete de Lata quis falar mas não deu. Se engasgou. O Bereco não se flagrou no olhar do panaca. Se tivesse visto as bolas de sangue nas botucas do Capacete de Lata ia ficar cabreiro. Não viu e fez a presepada. Passou giz no taco com calma. Se ajeitou na mesa, com calma. Aí levantou a mira. Viu a bola branca, a sete, a caçapa, atrás da caçapa um revólver quarenta e cinco, atrás do revólver o Capacete de Lata. O Bereco quis saber:
— Que é isso, meu compadre?
O Capacete de Lata espumou, babou e resmungou.
— Se meter essa sete, eu te mato.
O Bereco viu logo que era jura. Se fechou em copa. Deu na bola de esguelha, o taco espirrou. Relou na sete e as duas ficaram na berba da caçapa. Coladas. O Bereco fingiu que não havia nada.
— Ficou pra você, compadre.
O Capacete de Lata guardou o revólver treta, a raiva e tudo. Foi de cabeça. Deu no taco e bimba. A branca e a negra mergulharam juntas. O Bereco só ficou olhando. As lágrimas correram nos olhos do Capacete de Lata. Estava tão embaixo que não dava pra pegar a arma e aprontar o salseiro. Só deu um lamento.
— Tenho quatro bacuris.
O Bereco fez que não escutou. Recolheu a grana e saiu de fininho. O Capacete de Lata saiu logo atrás. Ninguém se mexeu. Passou um tempo e veio o estouro. Meio mundo foi ver as rebarbas. No meio da rua o Capacete de Lata estava estarrado. Tinha o revólver na mão e uma bala na orelha. Se acabou. O Bereco só teve pena de nunca mais poder dar grupo em trouxa do Cubatão. Perdeu um grande pesqueiro.
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*Pela bola sete, Plínio Marcos. Crônica publicada em Última Hora, 12/01/1969



